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A voz que diz que você não é suficiente

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Quando ela me encontrou pelo Instagram, o relato era direto.

Era muito ansiosa. Sabia que tinha potencial — as pessoas ao redor viam, os chefes elogiavam, os resultados apareciam. Mas algo dentro dela não acreditava em nada disso. Se comparava com todo mundo e sempre saía perdendo nessa comparação. Sempre se nivelava por baixo.

Ansiedade era o nome que ela dava para o que sentia. Mas quando fui fundo, encontrei outra coisa.

Ela era filha única. Mãe superprotetora — daquelas que colocam medo em tudo, apontam defeitos, não elogiam. Não por maldade. Por um jeito torto de amar que veio de algum lugar também.

O que essa menina aprendeu, crescendo nesse ambiente, foi simples e devastador: o mundo é perigoso, você não dá conta, e você tem mais defeitos do que qualidades.

Essa crença não ficou na infância. Ela cresceu junto com ela. Virou voz interna. Virou ansiedade. Virou a mulher que recebia elogio do chefe e mesmo assim ia para casa pensando que não era boa o suficiente.

 

A virada aconteceu quando resgatamos a história.

Quando ela entendeu que a mãe projetava nela tudo que gostaria de ter vivido e não viveu — o quanto aquela crítica constante não era sobre ela, mas sobre a própria mãe.

A voz que dizia “você não é boa o suficiente” nunca foi dela.

Foi a primeira vez que ela conseguiu separar o que era dela do que tinha sido colocado nela.

A partir daí a vida dela deu uma guinada.

Ela começou a se mostrar. A apresentar projetos para a chefia. A ocupar espaços que antes evitava porque achava que não merecia estar lá.

Em menos de um ano e meio, recebeu duas promoções.

Não porque ficou menos ansiosa. Mas porque parou de acreditar na voz que a diminuía — e finalmente começou a se enxergar do jeito que sempre foi.

Ansiedade quase sempre tem um endereço.

Não é só química, não é só genética, não é só o ritmo acelerado da vida moderna. Na maioria das vezes, embaixo da ansiedade tem uma história. Uma crença formada cedo sobre quem você é e o quanto você vale.

E enquanto essa crença não é identificada, não importa quantos elogios você receba, quantas conquistas você acumule, quantas promoções venham.

A voz continua dizendo que não é suficiente.

Se você se reconheceu aqui — me manda uma mensagem. Às vezes o que parece ansiedade é só o nome mais recente de algo que começou muito antes.

Soraya Contin  |  Psicóloga Clínica · Terapia do Esquema




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