carreira

Por fora, está tudo bem. Por dentro, quase nada.

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Ela tem uma vida que, no papel, é motivo de orgulho. Cargo de liderança, casamento estável, corpo em dia, agenda cheia de compromissos que ela cumpre com perfeição. Quando alguém pergunta "como você está?", a resposta sai automática: "Ótima, correria normal." E, de fora, ninguém duvidaria.

O que ninguém vê é que, há meses, ela não sente vontade de nada. Não é tristeza — seria mais fácil se fosse. É uma espécie de vazio administrável. Ela ri quando precisa rir, entrega tudo no prazo, participa das reuniões com aparência de total controle. Mas por dentro, é como assistir à própria vida através de um vidro fosco: vê tudo, mas não sente quase nada.

Ela nunca contou isso a ninguém. Porque, no fundo, pensa: "eu não tenho motivo pra estar assim." E é exatamente esse pensamento que mantém tanta gente presa nesse estado, sozinha, por anos.

Isso tem nome científico: Depressão de Alta Performance. Um artigo publicado em 2025 na revista científica Cureus descreve um padrão específico — pessoas que mantêm desempenho profissional impecável mesmo enfrentando sintomas depressivos reais, como anedonia (perda da capacidade de sentir prazer) e uma sensação persistente de vazio ou exaustão. A diferença central em relação ao burnout é que, no burnout, o desempenho no trabalho geralmente despenca de forma visível. Na depressão de alta performance, não. A pessoa continua entregando resultados — e é justamente por isso que raramente é diagnosticada, mesmo relatando, quando questionada com cuidado, que se sente esgotada ou anestesiada.

Um segundo estudo, publicado em 2026 na revista científica Motivation and Emotion, foi ainda mais longe: pesquisadores entrevistaram pessoas sobre a experiência de sentir "quase nada" — e descobriram que essa anestesia emocional é muito mais comum do que se imagina, indo muito além de quadros clínicos formais. Quase todos os participantes do estudo já haviam vivido isso em algum momento.

Na vida profissional, esse padrão é ainda mais difícil de identificar. Produtividade costuma ser confundida com bem-estar. Uma pessoa pode continuar sendo promovida, batendo metas, sendo referência para a equipe — e, ao mesmo tempo, estar emocionalmente desconectada de quase tudo. Ninguém pergunta "você está bem de verdade?" para quem está performando bem. E quem está anestesiado nem sempre sabe nomear o que sente — só sabe que sente pouco.

Se você se reconheceu nessa descrição, a pergunta não é "por que eu não tenho motivo pra estar assim". A pergunta certa é: há quanto tempo você aprendeu que sentir menos era a única forma de continuar dando conta de tudo?

Se você se reconheceu aqui — me manda uma mensagem. Às vezes o vazio que parece "normal" é só o nome mais recente de algo que começou muito antes.

Soraya Contin | Psicóloga Clínica · Neurociência e Saúde Mental

Referências: Joseph, Tural, Joseph et al. (2025), "Understanding High-Functioning Depression in Adults", Cureus. Leia o artigo completo: https://www.cureus.com/articles/322152-understanding-high-functioning-depression-in-adults · Westfall & Veilleux (2026), "I don't feel a single thing: the experience of and attitudes toward emotional numbness", Motivation and Emotion (Springer, acesso pago).

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